
Eles e os outros
Nunca antes na história desse país um governante produziu um discurso recheado por tamanho volume de asneiras e cretinices quanto Luiz Inácio Lula da Silva. Ontem, entretanto, na Espanha, ao tentar defender o indefensável, Lula acabou cometendo uma rara ideia coerente: a de que o senador José Sarney "não pode ser julgado como uma pessoa comum". É a mais pura verdade. "Pessoas comuns", ou seja, algo em torno de 190 milhões de brasileiros, não conta com o privilégio - como Sarney - de poder contratar, às expensas dos cofres públicos, duas sobrinhas e um neto, além de uma prima e uma sobrinha do genro (que, por sinal, mora na Espanha). "Pessoas comuns" não costumam contar com uma mansão própria em Brasília e, ainda assim, ser brindadas com outra casa funcional e, por não usá-la, receber mensalmente R$ 3,4 mil a título de auxílio-moradia. "Pessoas comuns" também não costumam participar de um clube fechado, com orçamento anual de R$ 3 bilhões, onde uma miríade de diretores escolhidos a dedo pelos senadores produz toda sorte de peculato, abrigados sobre o manto do segredo em atos que ninguém sabe, ninguém viu. Para concluir, sob pena de cansar o leitor, vale a pena lembrar que "pessoas comuns", em geral, não pertencem a oligarquias que, em 50 anos de poder, acumularam uma fortuna estimada em R$ 150 milhões, ao mesmo tempo em que perpetuaram a miséria no Maranhão, um Estado onde 64% da população é classificada como miserável, apenas 12,5% das casas têm esgoto e 39 em cada mil crianças morrem antes do primeiro ano de vida. Por isso tudo, Lula tem rezão. Definitivamente, José Sarney não merece ser julgado como "uma pessoa comum".
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