quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A fuga

Agora a chuva parou. Só está frio e muito bom. Não voltarei para casa. Ah, sim. Isso é infinitamente consolador. Ele ficará surpreso? Sim, doze anos pesam como quilos de chumbo. Os dias se  derretem, fundem-se e formam um só bloco, uma grande âncora. E a pessoa está perdida. Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Àgua escura e silenciosa. Seus gestos tornam-se brancos e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la. Vive atrás de uma janela, olhando pelos vidros a estação das chuvas cobrir a do sol, depois tornar o verão e ainda as chuvas de novo. Os desejos são fantasmas que se diluem mal se acende a lâmpada do bom senso. Por que é que os maridos são o bom senso? O seu é particularmente sólido, bom e nunca erra.

LISPECTOR, Clarice. A bela e afera.

2 comentários:

Martins De'Áries disse...

Que lindo, de uma leveza arrebatadora! Gosto muito do seu espaço. Sempre compartilha conosco ideias e passagens muito boas de se consumir! E a imagem também é de arrepiar!! Beijoss.

Daniela Figueiredo disse...

Adoro as citações de Clarice, me fazem refletir sobre mim. Apesar de adorar ler seus textos e me identificar com eles, nunca li um livro de Clarice. Falha minha.
Beijos.

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