terça-feira, 11 de novembro de 2008

Ser negro

Não vou dizer que ser negra foi a razão para meus insucessos. Mas posso afirmar que contribuiu. Desde bebê, passei por situações que não teria passado se fosse branca. Resolvi tornar públicas minhas inquietações, no exato momento em que um negro venceu o Campeonato de Fórmula Um e outro foi eleito presidente dos Estados Unidos. Artistas, atletas de outras modalidades que não o futebol e modelos venceram o preconceito, conseguindo sucesso na carreira. Porém, ainda há muito por fazer, ainda há muito chão para percorrer.
Hoje em dia é fácil encontrar uma revista ou um programa com negros. Mas, quando eu era criança isso era raro. Cresci me achando feia, porque meu corpo não se enquadrava no padrão estético; este padrão era de pessoas brancas. Nos meios de comunicação, não apareciam negros; era como se nós não existissimos. Em menina, minha mãe mantinha meu indomável cabelo curtinho. Quando cresci, passei anos usando produtos para o manter artificialmente liso. Uma tia prendia meu nariz com prendedor de roupa, para o afinar. Usei cores de maquiagem que não combinavam com o tom de minha pele, simplesmente porque não havia opções. Além disso, tentava disfarçar minhas ancas largas e minhas nádegas protuberantes, próprias de mulheres negras, com blusas e calças largas. Enfim, eu tentava me embranquecer para ser aceita na sociedade. Por isso eu entendo o Michael Jackson e não o julgo. Talvez, se eu tivesse seu poder aquisitivo, teria tentado modificar minha aparência; não para ficar mais bonita, mas para ser feliz. Como não tenho sua conta bancária, com o passar dos anos acabei me conformando. A experiência me mostrou que ser negro, não é só uma questão de pele, mas de atitude; não adiantaria eu mudar por fora, se por dentro eu continuaria negra. Sim, porque ser negro não é só uma questão de melanina, mas de consciência. A gente passa por tanta coisa, que a cabeça fica diferente; eu posso afirmar isso por experiência própria, pois não sinto e vejo o mundo como uma pessoa branca. Simplesmente, não acontece.
Meu pai morreu de cancer, há vinte anos atrás. Ele era negro e lutou até seu último minuto de vida para ser aceito pela sociedade. Ele queria ter os mesmos direitos dos brancos, uma vez que tinha os mesmos deveres. Ele era ateu, mas nunca conheci ninguém que respeitasse mais a Deus e seguisse seus princípios. Quando criança, ele não pode estudar num colégio católico em Pelotas, onde nasceu; era a melhor escola da cidade e meu avô podia bancar. Mas, os padres deixaram claro que ele sofreria hostilidades e nada poderiam fazer para as impedir. Assim, para que ele 'não sofresse', seria melhor estudar noutra escola. Ele nunca desistiu. Veio para Porto Alegre, estudou e se formou Engenheiro Agrônomo pela UFRGS. É bonito ver a foto da turma de formandos - lá está ele, o único. Aliás, ele começou fazendo engenharia civil, mas recebeu a orientação de mudar de curso, pois teria mais dificuldade em conseguir emprego... Adivinha porque? Ele foi ser funcionário público, pois teria estabilidade e melhores oportunidades. Era muito disciplinado e estudioso. Tinha opiniões firmes e não temia as expor. Só teve que maneirar suas convicções comunistas, durante a ditadura militar; ele era esperto. Sabia que a morte ou o exílio seria seu destino; assim, nunca mudou sua maneira de pensar; só fez uma retirada estratégica. Foi casado, praticamente, toda a sua vida adulta, ou seja, procurou ter estabilidade emocional e viver em familia. Ele não negava suas origens, mas queria outras alternativas que não o futebol ou a música (até porque não tinha vocação para tal); assim, batalhou muito e procurou fazer tudo como os 'brancos': ter curso superior, um bom emprego, patrimônio (casa própria, carro), conhecimento e reconhecimento. Sempre saia bem vestido e barbeado. Nos dedos, a aliança e o anel de formatura; no pulso um relógio Ômega; nos pés, sapatos de cromo alemão. Mandava para revistas e jornais seus escritos sobre a condição negra e suas teses sobre a situação da agricultura no país; ele já apregoava o 'agrobusiness', há cinqüenta anos, mas não era levado a sério. Ele sofreu muito. O preconceito se materializa em atitudes, palavras e maltrata. Só o vi chorar uma vez, quando me pediu que eu rezasse ao 'meu Deus' para o levar embora, pois seu corpo fora vencido pela doença e estava cansado. "Ele" o atendeu.
TEXTO DE PENNY


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